O que não se deve fazer antes de comprar casa,
ou
“A ordem de preferências do meu vizinho”
Num destes últimos dias fiquei profundamente a meditar sobre qual a personalidade associada a determinados comportamentos sem no entanto querer fazer figura de pessoa coscuvilheira, ou seja, de quem se preocupa demasiado com a vida dos outros e pouco com a própria.
Imagino que este artigo possa ter pouco interesse para a maioria dos leitores, até porque retrata apenas mais um daqueles pensamentos ocorrentes na calma de um bela tarde de um domingo de verão…
Em si, tal pensamento nada teve de muito diferente, podendo até dizer-se que observações deste género nada têm de novo, pois que, mais que não seja, se trata de pensamentos os quais, vulgarmente, numa ou noutra fase da vida, à maioria de nós já ocorreram.
A síntese é a seguinte:
“Qual a ordem de preferências subjacente à compra de bens de luxo e a práticas consumistas sem que os primeiros critérios, aqueles que se devem de facto seguir, ainda não foram atingidos”:
Nessa calma tarde de domingo, tais pensamentos foram motivados por uma ocorrência muito simples: por ver passar em frente à minha porta um excelente veículo desportivo cujo valor de mercado, na sua versão mais baixa se aproxima dos 80.000 Euros. Em abono da verdade, diga-se, fiquei deliciado e pensei: “que carro maravilhoso, uma obra prima de tecnologia e design”.
Até aqui, tudo bem.
Sorte a do meu vizinho, dou-lhe os meus sinceros parabéns pela opção. Soube escolher!
Mas o que mais me intrigou foi a ordem de preferências associada.
Aqui, faço minhas as palavras de um conhecido apresentador de televisão o qual há cerca de três semanas atrás, ao entrevistar o Ministro da Economia dizia: “quem sou eu para o contestar, afinal o Sr. é o Ministro da Economia”.
Sim, quem sou eu afinal para contestar as preferências do meu vizinho? Longe de mim tal arrogância.
Aqui torna-se evidente que esse meu vizinho nem sequer imagina a existência deste artigo. Nem eu o quereria, afinal, sempre fui apologista das melhores relações de vizinhança.
Mas, por muito que isto me custe confessar, tanto este pensamento me envolveu, que não resisti a passá-lo a escrito:
“Então, não é que o meu vizinho tem um carro de 80.000 Euros mas habita num apartamento arrendado!”
Bem, quanto a isto, cada um faz a vida que quer e como dizia o tal jornalista da televisão, “quem sou eu para o contestar?”
Afinal o meu vizinho, com aquele carro até parece o Ministro da Economia, isto claro, sem qualquer desprestígio do Ministro da Economia, o qual, diga-se de passagem, me parece uma pessoa muito mais criteriosa do que, peço desculpas, quer o meu vizinho, quer o tal jornalista.
Mas, nada como dar os parabéns a quem os merece, e quanto a isso, sou o primeiro a dar a mão à palmatória:
“Parabéns ao meu vizinho pela escolha do carro”.
No entanto, para quem tem um carro destes, viver num apartamento arrendado, bem…
… por muito que me peçam, aqui, não lhe dou os parabéns.
É que, no meio destes pensamentos, ocorreu-me um particularmente convincente, (pelo menos para mim próprio):
Pensei: “Quando for velhinho sempre deixarei aos meus filhos três belas habitações, representativas do esforço que fiz ao longo da vida e que sempre lhes poderão ser úteis, como bens que são, de valor significativo…
Poderão nelas habitar, vender e rentabilizar.
Foi aqui que me vieram as lágrimas aos olhos…
De facto, pobre do meu vizinho:
Por muito que não queira, daqui a um ou dois anos o bólide já pouco valerá, e por muito bons votos de prosperidade que faça ao meu vizinho, dificilmente lhe poderei garantir que um dia os meus filhos irão ouvir dizer aos dele o seguinte:
“o nosso pai deixou-nos este maravilhoso veículo do qual tiramos hoje, ao fim de dez anos, rendimento, património e valorização. Só é pena, porque não temos bens de outra natureza, que não possamos levá-lo, com a frequência que necessita, … à oficina.”
E é por isto que não invejo o meu vizinho, (até porque inveja é pecado) por não ter um carro como o dele e me sinto satisfeito por a minha ordem de preferências sempre ter sido o investimento em imóveis.
Mas, afinal, “quem sou eu para o contestar”…
Por: IMOFACTOR ®

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